Capoeira

A Capoeira como patrimônio histórico imaterial da sociedade brasileira

A capoeira é registrada como um bem histórico imaterial,em 15 de julho de 2008. Tal processo se iniciou em 2004, quando o então Ministro da Cultura, Gilberto Gil, levou um grupo de capoeiristas a Genebra, na Suíça, para homenagear o embaixador Sérgio Vieira de Mello, morto um ano antes em atentado terrorista no Iraque. Neste momento, Gil lançou as bases de um Programa Brasileiro e Mundial para a Capoeira (Castro, 2007). O então ministro chamou a atenção para a grande expansão da capoeira pelo mundo afora e declarou que, a partir de então, o Ministério da Cultura reconheceria essa prática “como ícone da representatividade do Brasil perante os demais povos”

A Capoeira e o Judô


No início do século XX era comum que Japoneses da Kodokan viajassem pelo mundo realizando desafios ou demonstrações. E o Brasil não estava fora da rota. Muitos desafios e demonstrações foram realizadas aqui, inclusive pelo Conde Koma.
Um destes desafios ocorreu com a capoeira. Há poucos registros sobre essa luta, mas não deixa de ser interessante imaginar como ocorreu. Foi em 1909, no Rio de Janeiro. Um embate entre um Japonês chamado Sada Miyako e um capoeirista, chamado Francisco da Silva Ciríaco, conhecido como Macaco Velho. Não se sabe ao certo qual era o estilo de Sada Miyako: se ele era representante da Kodokan ou de algum Koryu. Há quem diga que Sada Miyako era o próprio Conde Koma. Mas de qualquer forma, o que o japonês não sabia era que no Brasil, Macaco Velho é macaco esperto. Ainda mais se for capoeirista. A luta durou, segundo relatos, menos de 10 segundos.
Golpe de capoeira conhecido como "rabo de arraia"
Golpe de capoeira conhecido como "rabo de arraia"

Há pelo menos duas versões para o combate. A primeira diz que Ciríaco acertou o japonês rapidamente com um rabo de arraia, nocauteando-o. A segunda versão diz que Ciríaco, o Macaco Velho, usou a velha malícia da capoeira e antes da luta, no momento de cumprimentarem-se, deu uma cusparada no olho do japonês e aplicou logo em seguida o rabo de arraia, nocauteando-o.
Esse talvez tenha sido o primeiro contato inicial entre a capoeira e o Judô Kodokan. Mas houve outra interação mais explícita e direta entre essas duas artes. Essa interação aconteceu num momento de modernização da capoeira Regional, realizada pelo Mestre Bimba. O Mestre Bimba teve como aluno um rapaz cearense chamado José “Cisnando” (alguns textos grafam como “Sisnando”). Esse rapaz foi aluno direto do Mestre Takeo Yano. Takeo Yano era mestre de Judô, e inclusive teve a oportunidade de lutar contra Hélio Gracie, terminando o combate em um empate, em 1936.  Cisnando aprendeu Judô com Takeo Yano, e também aprendeu outras lutas japonesas, como o Karatê.
Segundo o Mestre Decânio, amigo e discípulo de confiança de Mestre Bimba:
“Cisnando logo induziu o Mestre Bimba a enriquecer o potencial bélico da luta negra pelo acréscimo de movimentos oriundos de outros processos culturais africanos e alguns raros de outras origens ampliando seus recursos pugilísticos e a registrá-la sob uma nova denominação, batismo que disfarçaria sua origem duma atividade legalmente proscrita! [...] durante uma visita do Presidente da República ao Palácio da Aclamação… uma nova exibição da capoeira baiana, o Dr. Getúlio Vargas entusiasmou-se e apoiou a Luta Regional da Bahia como lhe foi apresentada a capoeira…
Assim é que foi a capoeira rotulada como “Luta Regional Baiana” ganhando título de cidadania fugindo à pretensa marginalidade adquirindo o direito à liberdade de ensino e à prática regulamentada.”
Não é a toa que o “Cisnando”, capoeirista e judoca, é hoje conhecido como a pedra fundamental da Regional. Graças a ele, a sua influência com o Mestre Bimba e com personalidades da política local – visto que Cisnando foi o primeiro aluno branco e da classe social dominante admitido pelo Mestre Bimba – é que a capoeira Regional foi reconhecida e oficializada no Brasil.
(http://www.judoctj.com.br).